Segunda-feira, 23 de Abril de 2018
"A MINHA RELÍQUIA"

Faca de Mato.JPG

 -NOTAS DO MEU DIÁRIO-

“A MINHA RELÍQUIA”

 

            Tudo se tinha alterado, para melhor, numa madrugada florida com muitos sonhos para serem cumpridos.

Os ventos da mudança arejaram, também, os costumes no Casino da Póvoa de Varzim, ponto de encontro de gerações. Antes de abril de 1974, gente mais endinheirada, disposta a deixar nas bancas do jogo tradicional avultadas quantias, dinheiro nem sempre ganho com o seu próprio suor, muito dele fugido ao rigor contabilístico das suas empresas. Acesso de acordo com a condição social ou económica. Porteiros diligentes numa triagem muitas vezes pautada pelas notas de escudos escondidas num aperto de mão. Forasteiros olhados com desconfiança, contando a seu favor boa apresentação, diga-se fato e gravata, e sem qualquer esquecimento do bilhete de identidade.

Depois daquela data, com a revolução, tudo se alterou e democratizou. Passou a fazer parte de ponto de encontro de muita gente do Norte. No bar, logo à entrada, cruzavam-se pessoas com hábitos e sentires diferentes, mas que os novos tempos aproximara sem aparentes ressentimentos. Passou a ser uma das salas mais concorridas, onde as conversas da política fluíam conforme a vertigem dos conflitos da altura. E, na boîte, as noites eram quentes e vibrantes. Os espetáculos, de cariz revisteiro traduziam já a grande liberdade de expressão oral e corporal, com bailarinas, ainda, maioritariamente, inglesas e francesas. A nova dinâmica política trouxera para a ribalta muita gente até aí escondida ou anónima. Os conflitos estavam presentes. Bombas rebentavam por todo o país, mais no Norte. O crime violento aumentava e as polícias desdobravam-se em operações noturnas de prevenção ao crime Os regressados das ex-colónias, “retornados” vieram trazer mais brasas para a fogueira já em acelerada combustão. Tudo era notícia para uma boa conversa de copo de uísque na mão e os cubos de gelo a baloiçarem cingidos ao vidro.

            Naquela noite, princípios de verão, tinha deixado os amigos de ocasião por volta da uma hora, mais cedo de que o costume. Uma operação policial estava marcada para essa madrugada. Precisava de algumas horas de sono. Não tinha condições para mais uma direta. “Já vais, agora que a conversa está aquecer?”Alguém questionou.

De facto, a conversa estava acalorada, por vezes agressiva na palavra e nos gestos, conforme os intervenientes se posicionavam ideologicamente. O assalto à sede do MDP/CDE em A-Ver-o-Mar-Póvoa de Varzim, no dia 16 de Junho de 1975 era o tema quente.

Depressa me ponho junto à porta de saída, a principal, virada para a enseada, sem tempo para ver e ouvir a partida ou chegada das traineiras. Apenas dois dedos de conversa como de costume com o Elisiário, porteiro que nos cerca de dois metros de altura e metido no seu uniforme azul, tipo fraque, emprestava altivez lá no cima da escadaria.

Homem de algumas confidências, satisfazendo curiosidade de polícia que, longe dos meios modernos auxiliares na investigação, assim ia penetrando no meio criminal. Depois do “até manhã Elisiário”, dou por mim a contar os degraus da escadaria. No fundo, somei dezassete. Curiosamente, durante cinco anos de subidas e descidas frequentes, nunca me tinha dado conta de tal número. Questionei-me: “será que alguém sabe?!” Talvez poucos o saberão!  

            Nessa noite, o meu cão, “Nico”, companheiro de muitas madrugadas, haveria de morrer...!

Sempre que me deslocava para a minha habitação, casa de família, em V.N. de Famalicão, o Nico vinha ao meu encontro, sentia, cheirava, reconhecia o aproximar do trabalhar do meu automóvel! Incrível! Quem tiver animais e os trate com carinho e dedicação, saberá do que estou a falar!

Na rua, era uma festa, um rodopiar em volta das minhas pernas, saltos e mais saltos, esperava ansiosamente umas festas das minhas mãos acariciadoras. E, se a sua ausência se manifesta-se, momentos depois, aparecia ofegante, sinal de quem tinha andado pelas ruelas, caminhos e campos da aldeia em busca de companhia. Sendo certo que ele, pela sua pequenez, poucas possibilidades tinha de competir com outros cães de porte elevado, como era o caso do outro cão que havia lá em casa, retrato de lobo, com nome de “Facho”, mas que nada tinha de bravura, antes, um paz-de-alma que só queria comer, dormir, umas festinhas e fazer filhos nas cadelas da vizinhança. Talvez se encontre nesses seus predicados a razão para o seu nome. Por isso, o Nico seria o último da fila e mesmo assim só para cheirar.

Na verdade, “Facho” aceitava carícias de toda a gente, de qualquer um, mesmo desconhecido, pelo que posso acrescentar que a casa dos donos não podia contar com grande guarda. Só o seu porte, no imediato, podia intuir alguma ameaça, que logo passava com um afago de mão pela cabeça que colocava a jeito. Ao contrário do Nico que era agressivo, disposto a defender o dono até aos limites das suas capacidades, e com quem só partilhava os seus afetos.

            Nessa madrugada estranhei, senti a falta, sobretudo do Nico. O Facho trocava-me por qualquer cadela vadia que lhe aparecesse. Aquele tinha-me acostumado à sua disponibilidade total, não sei medir qual de nós sentia mais prazer nestes encontros! A sua ausência, nunca acontecida, fez-me temer algo de anormal. Esperei uns largos minutos, ele merecia a minha atenção. Afinal até era a primeira vez que os papéis se invertiam. A sua demora levou-me até à cama, tinha de me levantar cedo, e já não mais de duas horas para dormitar. O trabalho esperava-me. Vidago como destino. Buscas programadas a instalações hoteleiras, ocupadas por “Retornados” das ex-colónias.

            Objectivo principal, o Palace Hotel que eu conhecia mal, apenas algumas boas lembranças do tempo de criança, com dez anos de idade, num dos passeios em família que o meu pai nos proporcionara, coisa rara na altura, para gente onde o dinheiro não abundava. Tínhamos a vantagem do meu pai já ter carta de condução, único na minha aldeia e contar com a amabilidade de primo Aníbal de Fafe, ausente em Moçambique, cujo automóvel “Opel” descapotável de cor creme nos emprestava. Nesses dias, era sempre uma festa que a minha mãe, Graciosa, vivia com grande intensidade, começando logo manhãzinha ao raiar do sol a preparar o merendeiro. Registei o lindo jardim e um lago. A cor rosa do edifício fascinara-me, tonalidade que me acostumara a ver na minha infância, na casa dos meus avós maternos, aliás, construções sensivelmente da mesma altura. Cor que eu associava às lindíssimas camélias rosa que desabrochavam na frondosa cameleira do jardim da nossa casa.

            De facto, nessa madrugada, o Nico haveria de aparecer com a morte a caminho. O veneno largado por dono de cadela com cio fora-lhe fatal. O despertador fez-me levantar. Nico sente a minha presença. Manifestava-se nos gemidos e num raspar de unhas na madeira, desespero de últimos momentos de vida, lamentos que eu notava vindos da parte de fora da porta de acesso ao quintal. Abria-a…! Fiquei especado no lumiar da porta. Vejo o Nico assapado. Temo coisa ruim...! Olhou-me já sem poder e com olhos mortiços e lacrimejantes, quando eram vivos e brilhantes. Com grande esforço, elevou ligeiramente a cabeça, Eu, petrificado, ele, como sempre, até na morte, foi o primeiro a aproximar-se, cálculo com um esforço brutal, arrastando as patas traseiras, ação direta do veneno a dilacerar-lhe as vísceras. Coçou-me os pés…! Esperava, como de costume as minhas carícias. Desesperando por elas. Por isso, prolongou a agonia. A minha mão sobre a sua cabecita tranquilizou-o…! Morreu...!

Parti para Vidago angustiado, assaltado com pensamentos de vingança contra o dono da cadela. O tempo fez esquecer.

Tinha regressado, em outras circunstâncias, a um local marcante da minha infância. Embora o momento não fosse para grandes reflexões. Era agora visível um edifício em degradação. Por certo, só comparável com as vidas fragmentadas destas pessoas que agora o ocupavam, vindas de terras africanas, abatidas e desiludidas, muitas delas sem forças bastantes para um caminho novo na sua vida.

O chamado “Verão Quente” de 1975 estava em marcha. Muitos dos retornados, movidos por sentimentos de injustiça, desagradados com a descolonização, a seu ver injusta, estavam em sintonia com fações politicas dispostas a reverter o curso da revolução, uma minoria ao serviço de grupos de extrema-direita para quem toda a violência estava legitimada. Anunciava-se a possibilidade da confrontação armada. As polícias lá iam dando o seu pequeno contributo, onde os militares eram reis e senhores, e investiam em operações nocturnas e em objectivos determinados no sentido de localizar e apreender armas, “mesmo as distribuídas em boas mãos”.

A manhã clareara. As viaturas polícias aproximaram-se lentamente, cautelas de surpresa até ao limite. O Hotel está ali à nossa frente!. Polícias com espírito de missão ocupam os andares. Uma voz que tenta ser firme e determinada: “abram que é polícia…?!”. As portas abrem-se sem resistência. Notoriamente, gente agastada, contando múltiplas situações dolorosas, que esta seria mais um pequeno acrescento. A minúcia da busca não deixa grande tempo para diálogo com o buscado. Quando o polícia era questionado para ter cuidado com esta ou aquela peça, entre coisa pouca; para não mexerem aqui ou ali; “só aí tenho roupa pessoal e dos meus filhos; a resposta era quase sempre a mesma e de forma ríspida: “calado, eu sei o que estou a fazer..!”. É evidente que não era uma regra. Já aparecia gente com outra forma de sentir as coisas de polícia.

Eu estava ainda num processo de aprendizagem. Não tinha mais de oito meses de polícia. Determinava-me, cumprindo, ouvindo e observando muito, mas imprescindível actuar de acordo com a legalidade e muito com a minha consciência cívica e moral.

No quarto 52, encontramos Manuel. Um homem abatido, só. Uma nuvem de fumo, cigarro, um atrás do outro, em noite de insónias. Não mais de 60 anos de idade, mas que a escala da vida lhe atirava mais uns dez. Aqui tudo tinha sido pacífico. Na verdade, não era nesta gente simples com palavras poupadas que iriamos encontrar quem já não tinha asas para grandes voos, se é que algum dia as tiveram nas suas terras de procedência. Numa gaveta da cómoda foi encontrada uma faca-de-mato com a respetiva proteção em couro. Pela forma alinhada, contrariamente a outras gavetas, adivinhava-se um carinho especial por aqueles parcos haveres. Manuel, continuando com o cigarro entre dedos amarelecidos, ora sugando o fumo em ritmo crescente de ansiedade, não retirava os olhos da mão de quem segurava na faca.

Por fim…!

-Senhor Manuel, terminamos!

Respondeu com aceno de cabeça, sem tirar os olhos da faca.

-Olhe...! A faca, vamos levá-la. É proibido por lei...!

Nada disse. Olhos humedecidos, segurando, homem valente ou querendo fazer-se, o que no soluçar se adivinhava.

Fui o último a deixar o quarto em silêncio e a bater a porta. A morte do meu cão tinha-me deixado fragilizado, e quando assim é o sentimento fala mais alto. A confusão instalada nos andares, permitiu-me um regresso sigiloso ao quarto do senhor Manuel, como eu imaginava, estava num choro abafado e assim continuou. Sentei-me, também, junto a ele na cama onde sempre esteve de olhos no chão durante a invasão do seu quarto. Só eu falava, de uma forma desajeitada. Ele, sem um leve queixume, escutava-me. Questionei-o sobre o seu estado emocional: “é por causa da faca-de- mato!?”. Confirmou com voz embargada e aflorou do sentimento que o ligava a essa arma branca. Tinha sido o primeiro presente que o seu pai lhe oferecera assim que pisou terras Angolanas, companhia inseparável, pendurada à presilha das calças ou ao cinto A minha empatia com Manuel tinha sido conseguida. Senti que as minhas palavras o tinham tranquilizado um pouco. Senti que ali tinha ficado uma porta aberta para um eventual reencontro.

Operação acabada. E foi apreendida uma quantidade significativa (entrega voluntária...!) de facas, transportadas para a Diretoria do Porto sem qualquer formalidade de forma a identificar os respetivos donos. Mantiveram-se amontoados durante muito tempo num gabinete da Brigada Externa, na qual eu estava colocado. Apercebi-me que poderia restituir a faca ao Manuel sem inconvenientes de maior, ou mesmo nenhum. Guardei-a, antes que se extraviasse.

A minha inquietação subia a cada abertura da gaveta da minha secretária. Um mês depois, um sábado, disponibilizei-me para o reencontro com Manuel. E, de facto, aconteceu. Devolvi-lhe a faca. Os seus olhos brilharam. Olha..! “A minha relíquia!”. Pensei, não é coisa de santo, será tão preciosa assim ou terá o homem lido livro com título sugestivo? E até gostei. Com a faca entre mãos, eleva-a um pouco, num gesto muito parecido em padre levantando cálice sagrado.

Encontrei um homem cada vez mais abatido por desesperança; por ausência de verdadeiros amigos, mais grave ainda por falta de familiares próximos e outras referências na sua aldeia natal.

Da nossa longa conversa, África esteve presente do princípio ao fim. Também eu com boas recordações do tempo, cinco anos antes, em que a guerra me levara até Moçambique, com passagem por Luanda. Experiencia que me fez compreender melhor este retornado, com sentir de animal perdido do seu dono. Desabafos, confidências, mas sobretudo o libertar-se de sentimentos oprimidos que Manuel tinha dificuldade em gerir neste momento crítico da sua vida.

Manuel, filho de gente humilde que no amanho da terra, que nunca haveria de ser sua, colhia o sustento. Natural de Vinhais, muito jovem, com dez anos de idade, acompanhou, com sua irmã mais velha, os sobreviventes duma prole de quatro, a sua mãe ao encontro do pai já em terras africanas, procurando um chão firme e assim uma vida mais digna e sólida. No distrito de Uíge, o pai continuava a trabalhar naquilo que melhor sabia fazer. Uma fazenda tinha sido o porto segura para toda a família. A sua irmã haveria de morrer cedo num acidente com máquina agrícola. Seus pais deixaram-no com naturalidade, sem uma longa velhice. Ele não era homem de uma só mulher, preferencialmente com pele escura. Um só filho assumido que a guerra levara.

Os grandes conflitos de 15 de Março de 1961, apanham-no com 40 anos. Um ataque surpreso à sua aldeia causara a mortandade, a tragédia estende-se a famílias brancas e negras. E a mulher com quem vivia, mãe de três filhos, foram vítimas mortais dessa tragédia. Manuel nessa noite encontrava-se ausente do povoado, uma outra companheira, de aldeamento vizinha, o acolhera no seu leito.

Tanta morte e daquela maneira, tinham-no transtornado. Nada lhe tinha ficado. Só um grande sentimento de vingança. Está agora imbuído no espirito da aplicação da lei de talião. Junta-se a melícias populares, defendendo populações e atacando sempre que possível, levando a morte, também eles, a gente inocente. A anarquia do princípio da guerra, com a chegada de tropas “ em força para Angola”, vai dando progressivamente lugar a um certo profissionalismo na arte de guerrear. A sua vida tinha-se alterado definitivamente, inconstante na maneira de pensar e agir. A idade fá-lo amolecer e atenuar o rancor de outros tempos. E a falta de vigor de homem a caminhar para a velhice, leva-o a procurar um amigo a viver na grande cidade. Luanda passou a ser cidade querida. Trabalho, fazia um pouco de tudo. Gostava particularmente da vida nocturna e despreocupada. Não perdia uma chegada dos navios com tropas ao porto marítimo da cidade, nostalgia, recordando a sua vinda no Paquete Moçambique. Da sua esquecida Freguesia de Paçó e de Portugal quase nada sabia. Em África julgava ter a sua derradeira etapa da vida. Mas os ventos da mudança que tinham chegado de Portugal e alterado o curso da história em África, e sobretudo a guerra instalada entre os grupos de libertação e que em Luanda teve o seu ponto alto com mortes e mais mortes, obrigou-o a partir rápido para o país que também era o seu mas sem qualquer afinidade.

Surpreendeu-me na despedida.

“Se não a posso ter em minha posse. Ofereço-lha. Ficará em boas mãos”

Como podia recusar!?

Um grande abraço selou os nossos sentimentos e emoções.

Uma pequena história ficou para contar!...

           Conclui das suas sábias palavras: “fui jovem, mão cheia de ilusões, ambição medida, vida para viver como sonhara um dia, tragédia em forma de noite infinita, por sim a resignação por nada ter, só um pouco mais, nada, do que a roupa que trago vestida e um corpo enfraquecido e doente de males vários, não tão grandes quanto os da alma!”.

E, como alguém disse: “ Há coisas que, de tão belas, talvez devêssemos guardar só para nós, não as falar, não as expor às imperfeições de uma descrição. Mas não seria justo. Porque ali, em segundos mágicos se condensa uma vida”.

 

 

Eliseu Melo    

 

 



publicado por Inspector PJ às 01:28
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